A recessão chegou antes do previsto

REESTRUTURAÇÃO E CRISE EMPRESARIAL

Publicado em julho 2026

Tenho o hábito de puxar conversa com motoristas de táxi e de aplicativos em praticamente todas as corridas que faço, sobretudo quando estou viajando. Sempre acredito que, entre um semáforo e outro, é possível conhecer um pouco da cidade, das pessoas e, muitas vezes, do país.

Neste sábado, porém, a caminho do Aeroporto de Congonhas, depois de três dias intensos de trabalho na capital paulista e tentando chegar a tempo para embarcar no último voo da Gol com destino ao Rio de Janeiro, entrei no táxi da vez, parado em frente ao hotel onde estava hospedado. Confesso que, excepcionalmente, não estava com muita disposição para conversar.

O Sr. Antônio, taxista de 61 anos, aparentemente também não estava em seu melhor dia. Além de dirigir de maneira um tanto quanto emocionante — buzinava para qualquer pessoa que ousasse atravessar o seu caminho —, resolveu me perguntar, logo nos primeiros minutos, se eu era alguma “autoridade”.

Intimidado com tamanha indiscrição, respondi, evidentemente, que não. Não era, absolutamente, autoridade alguma. Aliás, sequer me arrisquei a mencionar que era advogado, apesar de estar trajado com o uniforme quase oficial da profissão: terno, gravata e uma expressão de quem passou o dia discutindo problemas que não eram seus.

A partir daí, foram quase trinta minutos de críticas vorazes a todo e qualquer tipo de político. Esquerda ou direita, governo ou oposição, para o Sr. Antônio todos “não prestam”. A única exceção, curiosamente, era Paulo Maluf, que, em sua particular interpretação da história brasileira, teria sido o único que “roubava, mas fazia”

Tenho a convicção de que o Sr. Antônio não leu a entrevista concedida pelo ex-ministro da Fazenda Armínio Fraga à revista Veja, publicada em 24 de junho de 2026. Caso tivesse lido, talvez a corrida tivesse terminado antes do aeroporto — por iniciativa minha.

Na entrevista, o economista afirma que “o quadro é desastroso” e acrescenta não descartar uma recessão em 2027. Por isso, recomenda que empresas e pessoas tenham muito cuidado com as dívidas, preservem o caixa e evitem novos empréstimos.

No contato diário com clientes empresários, contudo, tenho constatado que, para muitos, a recessão resolveu antecipar a viagem: chegou ainda em 2026, instalou-se sem pedir licença e, aparentemente, não pretende fazer check-out tão cedo.

Não por acaso, o primeiro trimestre deste ano registrou números expressivos de pedidos de recuperação judicial, sem contar os pedidos de falência e os processos de recuperação extrajudicial. Por trás de cada estatística há uma empresa, empregos, fornecedores, famílias e empresários tentando compreender em que momento o problema deixou de ser pontual e passou a ameaçar a continuidade do negócio.

O empresariado brasileiro vivencia, em maior ou menor medida, mais um período de crise. Há quem diga que empreender no Brasil é aprender a conviver permanentemente com ela. A diferença é que algumas crises chegam pela porta da frente; outras entram silenciosamente, enquanto o empresário acredita que conseguirá resolver tudo no mês seguinte.

Depois de acompanhar centenas de empresas em dificuldades, percebo que um dos primeiros sinais costuma surgir quando os tributos deixam de ser pagos. Em seguida, o empresário começa a atrasar contratos bancários, renegociar dívidas com fornecedores, postergar aluguéis e utilizar recursos pessoais para sustentar a operação. Quando se dá conta, o problema da empresa já invadiu sua casa, seu sono e sua própria saúde.

Não é fácil atravessar momentos assim.

Eu mesmo vivi a adolescência e o início da vida adulta acompanhando a quebra das empresas das quais meu pai era sócio. Em outra oportunidade, contarei com mais detalhes como essa experiência influenciou profundamente a minha trajetória profissional. Por ora, basta dizer que aprendi muito cedo que uma empresa em crise não é apenas um número negativo em uma planilha. É um projeto de vida que começa a desmoronar diante de quem o construiu.

Talvez por isso eu faça questão de olhar para cada empresário em dificuldade não apenas como um cliente, mas como alguém que precisa recuperar a capacidade de decidir. Nosso trabalho é ajudá-lo a compreender a dimensão do problema, organizar as prioridades, proteger o que ainda pode ser preservado e construir caminhos juridicamente possíveis para a continuidade da atividade empresarial.

Nem sempre haverá uma solução simples. Em determinados casos, será necessário renegociar dívidas, rever contratos, reorganizar a sociedade, buscar medidas de proteção patrimonial ou recorrer aos instrumentos previstos na legislação, como a recuperação judicial e a recuperação extrajudicial. Em todos eles, porém, é indispensável agir antes que a crise passe a tomar as decisões no lugar do empresário.

Ao final da corrida, cheguei a Congonhas a tempo. O Sr. Antônio provavelmente seguiu o dia buzinando para os carros, para os políticos, para a economia e, talvez, para o próprio destino.

Eu embarquei pensando que, no fundo, ele tinha razão em uma coisa: há muitos motivos para indignação.

Mas, quando se trata de uma empresa em crise, indignar-se não basta. É preciso reconhecer o problema, preservar o caixa, buscar orientação e tomar decisões — de preferência antes que o motorista da crise assuma o volante, acelere no sinal amarelo e nos deixe apenas com a opção de apertar o cinto.

Leia mais em: https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/arminio-fraga-o-quadro-edesastroso/

Ricardo Petereit

Sócio Fundador do Petereit Advogados Associados

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