Uma conversa informal sobre sucessão patrimonial, ocorrida recentemente em um ambiente familiar, trouxe à tona uma realidade cada vez mais comum no universo empresarial brasileiro: empresas conduzidas sem transparência após o falecimento do fundador, herdeiros que não conseguem dialogar, patrimônio desconhecido pela própria família e disputas envolvendo direitos sucessórios e patrimoniais.
Situações como essas estão longe de ser casos isolados.
Uma reportagem publicada pelo Pipeline, do Valor Econômico, em 12 de junho de 2026, apresentou um dado que merece atenção: disputas familiares, conflitos societários silenciosos e sucessões mal conduzidas podem representar uma perda estimada entre 3% e 5% do PIB brasileiro. Em valores absolutos, isso significaria um potencial de destruição de riqueza entre R$ 381 bilhões e R$ 635 bilhões por ano.
O número impressiona, mas dificilmente surpreende quem acompanha de perto a realidade das empresas e dos conflitos sucessórios.
Quando a crise nasce dentro da empresa
Muitas crises empresariais não começam no mercado, nos bancos, no Fisco ou no Judiciário.
Frequentemente, elas surgem dentro da própria estrutura de decisão da empresa.
Começam quando os sócios deixam de conversar com clareza. Quando os herdeiros não sabem qual será o seu papel. Quando a sucessão é tratada como um assunto delicado demais para ser enfrentado. Quando a empresa cresce, mas a governança permanece informal. Quando o patrimônio se mistura com afeto, poder, vaidade, medo e silêncio.
Nas empresas familiares, especialmente, a ausência de regras costuma ser confundida com harmonia.
Enquanto há crescimento, caixa e liderança centralizada, os conflitos parecem administráveis. Porém, em momentos de retração, endividamento, sucessão, falecimento, separação, entrada de uma nova geração ou necessidade de capital, aquilo que estava apenas encoberto passa a comprometer a operação, o crédito, a reputação e, muitas vezes, a própria continuidade do negócio.
É exatamente nesse ponto que a crise deixa de ser apenas financeira e passa a ser estrutural.
A preservação da empresa exige mais do que soluções jurídicas tradicionais
Advogar para empresas em crise, especialmente em ambientes marcados por conflitos sucessórios, exige compreender que a preservação da atividade empresarial não depende apenas de petições, contratos ou processos judiciais.
Depende de reorganizar decisões, negociações, responsabilidades, riscos e expectativas.
Depende de criar mecanismos para que a empresa continue funcionando mesmo quando os sócios divergem, a família se divide ou o caixa aperta.
Nesse contexto, instrumentos como acordo de sócios, protocolo familiar, planejamento sucessório, reorganização societária, governança mínima, regras de saída, política de distribuição de lucros, proteção patrimonial e definição clara de poderes não devem ser vistos como mera burocracia jurídica.
São, na verdade, ferramentas de sobrevivência empresarial.
Governança não é luxo. É proteção.
No ambiente empresarial contemporâneo, governança não deve ser encarada como um tema restrito a grandes grupos econômicos.
Ela representa um instrumento de proteção, continuidade e estabilidade.
Empresas não quebram apenas por falta de dinheiro. Muitas vezes, quebram por falta de acordo, por ausência de negociação, por conflitos entre herdeiros, por indefinições de comando ou pela incapacidade de construir consensos mínimos para a tomada de decisões.
Por isso, a adoção de mecanismos de governança não é apenas uma medida preventiva. É uma estratégia voltada à preservação do patrimônio, da atividade empresarial e das relações que sustentam o negócio.
O desafio de construir empresas que sobrevivam aos seus fundadores
No Petereit Advogados Associados, a atuação está voltada justamente à proteção de empresas em momentos de instabilidade, conflito e reestruturação.
O objetivo é permitir que a crise seja enfrentada com método, estratégia e coragem, antes que ela se transforme em uma ruptura definitiva.
Afinal, quando a crise nasce dentro da própria empresa — ou dentro da própria família empresária —, o primeiro passo para superá-la é reconhecer que governança não é formalidade.
Governança é o que permite que uma empresa sobreviva aos seus fundadores, atravesse conflitos inevitáveis e continue existindo para além das pessoas que a construíram.
Ricardo Petereit
Sócio-Fundador do Petereit Advogados Associados
OAB/RJ 133.676 | OAB/SP 545.686


