Em sua última aula para a Classe de 2026 da Faculdade de Direito de Harvard, a Professora Kristen Eichensehr, em meio a uma profunda análise sobre geopolítica, instabilidade institucional, transformações globais e os impactos da Inteligência Artificial, fez uma advertência simples, direta e poderosa aos futuros advogados: é preciso aprender a “esperar o inesperado” — expect the unexpected.
A reflexão proposta pela professora transcende o ambiente acadêmico e encontra eco na prática cotidiana da advocacia. Ao longo das últimas décadas, profissionais do Direito têm sido constantemente desafiados a lidar não apenas com aquilo que é previsível, mas também com situações inesperadas que surgem em cenários empresariais, patrimoniais e familiares.
A advocacia, especialmente quando exercida ao lado de empresas, famílias empresárias, profissionais liberais e pessoas que atravessam momentos de crise, ensina diariamente que o Direito não vive apenas nos códigos, nas teses ou nos contratos. O Direito vive, sobretudo, no conflito entre a expectativa e a realidade
E, muitas vezes, a realidade chega sem pedir licença.
Quando o inesperado se materializa
Na semana passada, um julgamento perante a segunda instância do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro materializou, de forma bastante concreta, a advertência da Professora Eichensehr.
O caso envolvia a posse mansa, pacífica e prolongada de um imóvel por mais de 15 anos. Ainda assim, a manutenção de uma liminar foi confirmada pelo Tribunal, mesmo diante da existência de uma ação de usucapião em curso.
Em outras palavras, o episódio evidencia um problema recorrente: quando a segurança jurídica se torna demasiadamente rarefeita, todos passam a viver com uma sensação permanente de provisoriedade. Nesse ambiente, o inesperado deixa de ser exceção e passa a ser quase uma regra de convivência.
A importância da prevenção jurídica
Talvez por isso, no Petereit Advogados, exista uma preocupação constante com contratos bem redigidos, cláusulas bem estruturadas, riscos devidamente mapeados e conflitos adequadamente prevenidos.
Mensalmente, são redigidos e analisados centenas de contratos dos mais variados tipos: dos instrumentos mais simples aos mais sofisticados contratos empresariais. E a experiência demonstra que uma cláusula mal escrita hoje pode se transformar em uma ação judicial amanhã.
Aliás, foi exatamente isso que ocorreu recentemente.
Um contrato redigido há cerca de dois anos, em um momento no qual as partes estavam alinhadas e aparentemente em pleno consenso, deu origem a um conflito intenso em razão da interpretação de uma obrigação que vencerá agora em julho de 2026.
Durante quase uma semana, aquilo que parecia claro no papel passou a ser interpretado de formas distintas pelos envolvidos.
Foi necessário explicar, orientar, contextualizar e, em alguma medida, mediar o conflito. Curiosamente, somente quando uma das partes sinalizou que levaria a discussão ao Poder Judiciário é que a outra aceitou sentar à mesa e negociar de forma mais compatível com o espírito original da cláusula.
A instabilidade das relações e a modernidade líquida
É por isso que a prevenção jurídica permanece tão relevante. Não por apego ao excesso de formalismo. Não por preferência pela complexidade. Mas porque a experiência demonstra que a vida empresarial, patrimonial e familiar é muito mais instável do que as pessoas gostariam de admitir.
Nesse contexto, as reflexões do sociólogo Zygmunt Bauman permanecem extremamente atuais.
Ao descrever a chamada modernidade líquida, Bauman ajudou a compreender uma época em que as relações sociais, amorosas, profissionais, econômicas e institucionais perderam parte da estabilidade e da rigidez que um dia pareceram naturais. Tudo se tornou mais fluido, mais volátil e mais passageiro.
Se o mundo se tornou líquido, talvez o papel do advogado seja justamente ajudar seus clientes a construir algumas margens.
Esperar o inesperado
A advertência feita aos futuros advogados em Harvard também serve para empresários, gestores, investidores e famílias que precisam tomar decisões relevantes em um ambiente cada vez mais imprevisível.
Esperar o inesperado não significa agir com pessimismo. Significa reconhecer que conflitos, divergências e situações imprevistas fazem parte da realidade. Significa compreender que a prevenção jurídica, o planejamento e a construção de estratégias sólidas continuam sendo os instrumentos mais eficazes para enfrentar cenários de incerteza.
Porque, quando o inesperado chegar — e ele chegará em algum momento —, a diferença estará na existência de estratégia, preparo e competência para enfrentá-lo.
Ricardo Petereit
Sócio-Fundador do Petereit Advogados Associados
OAB/RJ 133.676 | OAB/SP 545.686


