O parque que sobreviveu ao próprio fundador

GOVERNANÇA E SUCESSÃO EMPRESARIAL

Publicado em agosto 2026

Durante as férias escolares, quem tem filhos sabe o quão complexo é manter a rotina de trabalho, de um lado, e, as crianças entretidas, de outro. Neste contexto, a exemplo de outros anos, resolvi juntamente com a minha família ir para Florianópolis e estender a viagem para o Beto Carrero World.

Já fazia pelo menos 10 (dez) anos que eu não ia ao Beto Carrero World e, notadamente, muitas mudanças ocorreram no parque! A começar pelo próprio aplicativo (“BCW”) que nos faz lembrar muito dos parques da Disney e da Universal. Outro ponto que me chamou muita a atenção foi o cuidado, a limpeza e a variedade de novas atrações mesclando, é claro, com os tradicionais shows e atrações que fizeram do BCW alcançar o status de maior parque temático da América Latina.

Enquanto passeava pelo parque um aspecto que se destacava com muito notoriedade era a referência ao seu fundador, Beto Carrero, ou mais especificamente João Batista Sérgio Murad, publicitário, apresentador, cantor sertanejo e artista circense nascido em São José do Rio Preto (SP) em 1937. De fato, o BCW, ou especificamente, a J.B.WORLD ENTRETENIMENTOS S/A com capital social de R$ 507.142.655,46 (Quinhentos e sete milhões, cento e quarenta e dois mil e seiscentos e cinquenta e cinco reais), havia conseguido duas proezas no meio empresarial: a primeira, superar a crise advinda de uma administração e governança centralizada na figura do sócio fundador; e, a segunda, após o falecimento do sócio/acionista fundador conseguir operacionalizar uma sucessão familiar e imprimir novas perspectivas que iam além da pessoa do Beto Carrero.

Conta a história que antes mesmo da morte de Beto Carrero, a empresa enfrentou sérios problemas jurídicos e contábeis. Em processo movido pelo Ministério Público Federal, a Justiça Federal de Itajaí (SC) condenou João Batista Sérgio Murad por sonegação fiscal de aproximadamente R$ 20 milhões (com denúncia apontando valores sonegados de R$ 63,6 milhões entre 1994 e 1996), resultando em multa equivalente a 18 mil salários mínimos e pena de quase quatro anos de prisão, posteriormente substituída por prestação de serviços comunitários.

Essas dívidas e problemas contábeis levaram Murad a repensar a gestão do negócio. Em 2001, em meio às dificuldades, ele optou por profissionalizar a administração, entregando a operação a executivos treinados pela Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte, reduzindo sua própria participação nas decisões a um almoço diário com os gestores. Essa foi a primeira grande virada societária do parque: a transição de uma gestão personalista e centrada na figura do fundador para um modelo colegiado, ainda mantendo o controle familiar do capital.

Lembro quando foi anunciado a morte de Beto Carrero em 1º de fevereiro de 2008, aos 70 anos, no Hospital Sírio-Libanês em São Paulo. Sua morte representou, como era de se esperar, o momento mais delicado da história do negócio: o parque precisava provar que conseguia crescer e manter sua identidade sem o personagem-fundador que havia dado origem a tudo.

Primeiro, conseguiu, com sucesso, efetivar a sucessão familiar. A sucessão recaiu sobre um de seus filhos, Alexandre "Alex" Murad, que assumiu a presidência com apenas 28-29 anos. Poucos meses após a morte do pai, Alex já declarava publicamente que a gestão manteria a rotina administrativa que já vigorava e que não assumiria o personagem cowboy criado pelo pai, preferindo concentrar-se na administração do negócio. Do ponto de vista societário, o parque manteve-se como uma sociedade anônima de capital fechado, com Alexandre como principal acionista, ou seja, empresa típica familiar.

Segundo, foi diversificar as fontes de apelo do parque, afastando-se da dependência do personagem cowboy e apostando fortemente em um modelo de licenciamento de marcas globais de entretenimento infantil e familiar. Foi aqui que novas áreas do parque ganharam vida através de parcerias com a DreamWorks Animation, trazendo personagens como Shrek, Madagascar e Kung Fu Panda, seguida por acordos com a Universal Studios (Velozes e Furiosos), Mattel (Hot Wheels) e, mais recentemente, Hasbro (Nerf Mania, 2023).

Fiz questão de pesquisar e trazer um pouco da história do BCW, posto que, em larga medida, no cotidiano do nosso escritório nos deparamos com empresas que enfrentam crises advindas de passivos fiscais, por exemplo. Outras que encaram enormes dificuldades societárias quando o sócio fundador falece. Em outras palavras, a história do BCW é a história de como uma empresa lida com crises sucessivas e, ainda sim, com muita resiliência consegue se manter com destaque no cenário nacional!

A minha curta viagem ao BCW, além de entreter as minhas filhas, sem dúvida, serviu, mais uma vez, de inspiração para continuar ajudando os nossos clientes a atravessarem as crises que se colocarem diante deles.

Ricardo Petereit

04/08/2026

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